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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Desça do ônibus- Ed René Kivitz


Para quem não sabe, semanas atrás os jogadores do Santos foram convidados a ir a um hospital em que são tratadas crianças portadoras de deficiências mentais. Já na porta do hospital, alguns jogadores ficaram sabendo que ele está ligado a entidades espíritas e, imediatamente, se recusaram a entrar no hospital, sob a alegação de que sua religião, não declarada no momento, mas presumivelmente evangélica, os proíbe de contatos com o espiritismo. Recusaram-se, assim, a manter contato com as crianças doentes. Outros jogadores entraram no hospital e cumpriram a tarefa para a qual haviam se deslocado até ali.


Criticado, como os demais do grupo resistente, Robinho exigiu:


"- É preciso que respeitem a religião da gente".

Texto sobre o episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com deficiência cerebral, para entregar ovos de Páscoa. Uma parte dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusaram a entrar na entidade e preferiram ficar dentro do ônibus do clube, sob a alegação que são evangélicos.


Ed René Kivitz, Pastor evangélico e santista desde pequenino, faz as seguintes ponderações:

Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais Bíblia e de cada uma das tradições de fé.

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo,ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião.

Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião.

Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.

O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância.

A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai.

E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.

Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, fazem com que os discordantes no mundo das crenças se dêem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar - você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.

"Temos bastante religião para fazer-nos odiar uns aos outros,

mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros"

(Jonathan Swift)

3 comentários:

  1. Leonardo Martins8 de julho de 2010 19:43

    Tudo quase perfeito. Existe, porém, uma pergunta a ser respondida: Eles sabiam exatamente aonde iriam? Não acredito que soubessem. Certamente que a religião separa as pessoas e já temos religiões demais no mundo. Mas eu não creio que alguém, em sã consciência, vá a um hospital e, de propósito, se recuse a entrar.
    Faltou sabedoria dos meninos da vila? Sim. E dos “não meninos” que armaram essa situação? Também.

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  2. Mas será que se eles soubessem onde iriam, eles aceitariam ajudar essas crianças? Que ensinamento é esse que eles recebem que não permite que um ato de caridade seja feito por que o local é de outra religião. Sou espirita e nem por isso deixo de ir na igreja evangélica (com amigos e namorada), gosto do pastor que nos traz a palavra. As vezes vejo pastores serem mais bem preparados para nos dizer o que devemos fazer do que um espirita.
    Acho que tá na hora de repensar a questão da religiosidade. JESUS NÃO VEIO DEIXAR RELIGIÃO, MAS SIM A NOSSA MISSÃO, OS NOSSOS DEVERES.

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  3. Este exemplo nos mostra entre outras lições, que o amor que Jesus nos ensinou e viveu, é o cerne da questão, isso é, como esses meninos nós também erramos, nos distanciamos, não apenas quando se trata de religião, mas de posição seja ela partidária, social, econômica etc, Jesus nos ensina a amamos a todos, por que ele nos amou primeiro...

    A pergunta também é: e se fosse eu e você naquele ônibus? com os mesmos pressupostos religiosos, eles podem até ter feito isto bem intencionados, para afirmar seus conceitos religiosos, mas as vezes, quem é que não se parece com esses meninos? atitudes nossas em determinados momento nos levam a agir assim, infelizmente- tenho agido diferente em outras circunstâncias ou só eles são pecadores?

    Jason Costa
    Moderador do blog

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